domingo, 3 de novembro de 2013

Somos “cidadãos de bem”

Vi essa semana uma notícia intrigante e ao mesmo tempo triste na internet. Na Inglaterra, Bijan Ebrahimi foi linchado e queimado vivo por moradores de seu bairro. Talvez você se espante com isso e me pergunte “mas por que isso?”. Pois bem, a acusação foi de pedofilia. Bijan Ebrahimi fotografava crianças que estavam no quintal de sua casa, e ao ver isso, os moradores do bairro o denunciaram para a polícia. A polícia, por não ter encontrado provas, liberou Bijan Ebrahimi, e a população, desgostosa por essa atitude “injusta”, decidiu fazer justiça com as próprias mãos.
Ebrahimi estava tirando fotos de jovens que danificavam jardim para denunciá-los
Pronto, talvez você tenha dito a si mesmo “bom, se ele era pedófilo, mereceu o destino que teve”. Fique tranqüilo, no Brasil pelo menos você não estará sozinho caso pense dessa forma. Na verdade, eu que tenho um pensamento diferente e perturbador sobre essa situação que destôo demasiadamente dessa massa. Explicarei o que penso e por que penso diferente.
Via de regra, quando se julga e age dessa forma tão macabra, imagino que a pessoa que está efetuando a ação não pensa na barbaridade de seus atos. Na verdade, acredito que a palavra “barbaridade” só passa na cabeça dessas pessoas quando associada àquele(s) que são julgados. E nisso eu sempre me questionei. Por que somos tão violentos? E mais. Por que não nos damos conta ou não assumimos essa violência inerente a nós?
Infelizmente, não tenho respostas. Mas um possível caminho me parece ser o conceito de “cidadão de bem”. Observando esses casos, noto que as pessoas que julgam sem refletir muito, defendem a pena de morte e, em algumas vezes, fazem justiça com as próprias mãos, acreditando que, de fato, o que fazem e pensam é correto, louvável e moralmente justificável.
Li certa vez que não há nada pior do que “pessoas de bem”. Pessoas de bem não têm dúvidas de nada, pois sempre acreditam que o que fazem e o que pensam é o correto. E afinal, por que não seria, já que são “pessoas de bem”? Hoje, me parece que esse modelo de cidadão está mais comum: um cidadão que não reflete muito, que age basicamente por instintos e acredita fielmente que a violência é a resposta para acabar com a violência. Paradoxal, não? Aliás, o que eles fazem não é violência, perdão! O que eles fazem é justiça! Afinal, num mundo onde a “elite intelectual” defende a supremacia dos Direitos Humanos, é fundamental que o “cidadão de bem” traga de volta valores morais esquecidos e restabeleça a sociedade organizada dos tempos passados! (conteúdo irônico)
Ora, temo dizer isso, mas numa sociedade repleta de “cidadãos de bem” é exatamente o lugar que não quero viver. Mas não há escapatória. Como visto, da Inglaterra ao Brasil há pessoas fazendo justiça com as próprias mãos, sem pensar se sua justiça é, de fato, justa! Notem que na notícia sobre o Bijan Ebrahimi, eu não me referi se ele é ou não é culpado de fato. Na verdade, isso não me importa. Longe de eu ser um defensor da criminalidade, sou na verdade uma pessoa contrária à ideia de que violência é a única capaz de acabar com a violência. Tenho horror a esse pensamento. É um pensamento irracional e demasiadamente selvagem. Mas aos curiosos, digo que o nosso personagem real aqui citado, o Bijan Ebrahimi, era inocente sim. Morreu injustamente. Morreu sem ter direito à defesa. Morreu nas mãos dos selvagens “cidadãos de bem”, defensores da moral e da “justiça”!

Por isso não me cansarei de dizer: temo o “bandido violento” sim, mas temo mais ainda o “cidadão de bem”. Isso por que sei que posso escapar com vida das mãos do “bandido violento”. Algo que certamente não acontecerá, caso eu caia nas mãos dos nossos louváveis “cidadãos de bem”...

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